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Morre aos 72 anos Florinda Gomes, mãe do jornalista Oswaldo Eustáquio

Florinda viveu uma história de amor digna de livro com o subtenente Oswaldo Eustáquio na década de 1960 e estabeleceu sua vida em Curitiba

Conhecida como Dona Paraguaia, ou Dona Flor, Florinda Gomes Eustáquio, de 72 anos, morreu na tarde desta terça-feira (14). Ela enfrentava problemas respiratórios há quase um ano. Deixou o marido, o subtenente de Infantaria reformado Oswaldo Eustáquio e dois filhos, a advogada Marilza Shibata e o jornalista Oswaldo Eustáquio (Filho). Em seu sepultamento, uma das provas de amor mais lindas presenciadas foi vista pelo autor desta coluna. Ele, de cadeira de rodas, sem mobilidade nas pernas, queria dar o último beijo em sua amada. Mesmo auxiliado por amigos, seu rosto não alcançava sua esposa, mas sem dúvida, essa foi a sua última maior missão e ele morreria por isso. Enquanto ele tentava beijá-la, todos que estavam no velório se emocionaram e foram as lágrimas. E claro, ele conseguiu.

Dona Flor, nasceu em um pequeno Vilarejo do Paraguai, chamado Cullandrilho, próximo a Concepcion. Ainda adolescente, deixou a cidade natal e atravessou o Paraguai em direção à fronteira com o Brasil. Chegou até a Ilha Margarita. Neste local bastava atravessar o caudaloso Rio Paraguai para chegar até a cidade de Porto Murtinho (MS). Foi em uma dessas travessias com barcaça que conheceu o então Sargento Alemão, assim era conhecido o infante Oswaldo Eustáquio, na década de 1960. Florinda nunca tinha visto olhos tão azuis em sua vida. Se apaixonou à primeira vista. O sargento Alemão, de 35 anos na época, também de pronto apaixonou-se pela paraguaia que havia recém completado 20 anos.

Para conquistar aquele que seria o grande amor de sua vida, o sargento começou a fazer aulas de guarani, idioma falado por sua amada. A primeira frase que aprendeu foi: Eu te amo. Em guarani: Che Rogai’ju. A partir daí, a história de amor de Julieta e Romeu ficou pequena perto do Sargento Alemão e da jovem Flor.

O sargento Alemão alugou uma casinha para os dois em Porto Murtinho, no lado brasileiro. Meses depois, acabou sendo presa por não ter os documentos brasileiros. Sim, a jovem Flor estava vivia clandestinamente no Brasil, sem ter entendimento legal disso.

Logo chegou o recado no Batalhão do Exército Brasileiro de Porto Murtinho. “Sargento Alemão, sua namorada foi presa por não ter documentos brasileiros”, disse um colega. Ele foi tomado por uma fúria e correu para a delegacia. Fardado e armado, rendeu o policial, deu um tiro no cadeado e libertou o seu amor com uma pequena chalana, um barquinho a remo, levou a sua amada para um lugar seguro, na Ilha Margarida, no lado do Paraguai.

A jovem Flor, ficou hospedada na casa de uma curandeira paraguaia, Nha Lemi. De noite, quando a lua brilhava sobre o caudaloso Rio Paraguai, o sargento Alemão e Flor fizeram um pacto de amor pela vida toda, a beira de uma fogueira, às margens do rio.

Depois que o sol raiou no dia seguinte, ele voltou ao quartel. A atitude heroica de salvar a sua amada, rendeu a ele um mandado de prisão militar. Seu comandante o condenou a dois meses de prisão, dentro das dependências da área militar. Mas, nada segurava o sargento apaixonado, que fugia todas as noites e de barco a remo atravessava o Rio Paraguai para ficar com a sua amada. Ele voltava pouco antes do dia chegar e apenas um amigo sabia de suas aventuras.

A segunda instância do Exército Brasileiro tomou conhecimento do crime militar que abalou as estruturas da pequena Porto Murtinho e já chegava a todos os quartéis do Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, o comandante resolveu majorar a pena do sargento alemão para seis meses de prisão militar, a ser cumprida na capital Campo Grande.

Querido por seus pares, o sargento logo conseguiu um amigo para levar a sua amada para um pequeno apartamento na capital do Mato Grosso do Sul. E assim como em Porto Murtinho, todas as noites ele fugia, atravessava a mata na área militar, pulava o muro e passava a noite com sua amada, também na capital. Mas lá, fora logo descoberto.

Foi chamado então pelo comandante e pelo médico psiquiatra do exército. “Eustáquio, detectamos que você tem fugido todas as noites, atravessado a mata, pulando o muro, ficando sonolento durante o dia, pois passa a noite toda acordado e a inteligência descobriu que você vai se encontrar com sua namorada”, disse o psiquiatra do Exército Brasileiro, que disse que isso estava acontecendo pois ele estava doente. A doença era de amor,....

O sargento Alemão conquistava todos por onde passava e seus comandantes disseram que pelo fato dele estar doente, iriam conceder a liberdade para que ele se tratasse. E foi aconselhado a viver esse grande amor em um outro estado. Ele ficou surpreso e agradecido, mas sequer sabia o nome de todos os estados brasileiros para escolher o novo local de trabalho para seguir a vida. Então, na presença de seus comandantes pediu um mapa do Brasil, fechou os olhos e lançou sorte sobre seu novo local de recomeço. Quando abriu os olhos, seu dedo estava sobre 20º Batalhão de Infantaria de Curitiba, o 20 BIB.

Então, o sargento Alemão seguiu viagem para Curitiba com sua namorada paraguaia, no final da década de 1960, onde construíram uma casa no bairro Uberaba. Foi lá que ganhou o apelido de “Paraguaia”, querida por todos da região. Se converteu ao protestantismo na igreja Evangélica Pentecostal Fonte da Vida, uma das primeiras a se estabelecer no bairro. Anos depois, participou da primeira missão da igreja ao Paraguai, sendo uma das fundadoras da Iglesia Fuente de la Vida no Paraguai.