Com apenas 442 habitantes, Riviera guarda herança polonesa e memórias do Brasil Império
O GPS indicava que o endereço era ali, mas tudo o que dava para ver era uma viçosa plantação de milho que formava uma barreira e se fundia com a área verde do local.
No intervalo do milharal, uma acanhada estradinha de terra dá acesso à casa de Vicente Ales, 77 anos, o morador mais antigo do bairro Riviera, região que exibe uma paisagem interiorana que resiste ao tempo e ao ritmo frenético de outros grandes bairros da capital.
Com apenas 442 habitantes, o Riviera é o menor dos 75 bairros da Curitiba e fica na Regional CIC. De acordo com o Censo do IBGE de 2022, uma parte deles é descendente de poloneses, que foram os primeiros moradores da região.
Como surgiu
A origem do bairro Riviera está ligada a Colônia Riviére fundada em 1876 e emancipada em 1878 às margens da antiga estrada do Mato Grosso. O nome da colônia veio de uma homenagem ao engenheiro Henrique Riviére por causa dos relevantes serviços prestados à colonização da Província.
Como todas as demais comunidades polonesas do Paraná, a Colônia Riviera foi criada pelo imperador dom Pedro II. Em 1880, o imperador, acompanhado da família real em visita ao Paraná aproveitou para conferir como os polacos estavam estabelecidos.
Recepção ao imperador
De acordo com relatos históricos da época, em Curitiba, a família real visitou as colônias do Santa Cândida e do Bairro Alto e não passou pela Riviera. Entretanto, toda a gente polonesa, inclusive da Colônia Riviera, foi a pé até a Praça 19 de dezembro para recepcionar o amigo imperador.
Um grupo de 21 moças vestidas de branco segurava cartazes e saudava o casal imperial. Estavam ali as jovens representantes das colônias Riviera, Tomás Coelho, Lamenha, Santo Inácio, Nova Tirol, Murici, Santa Cândida, Abranches, Orleans, Alfredo Chaves, Antônio Rebouças, Dom Augusto, Inspetor Carvalho, Venâncio, Zacarias, Argelina, Dom Pedro, Dantes, São João Batista, Dr. Araújo e Santa Felicidade.
Uma vida no bairro
Como a maior parte dos moradores antigos, Vicente Ales nasceu e passou toda a vida no bairro. Ele ganhou o título de decano da região com a morte, há poucos meses, de Antônia Rompa Pepinsky, que alcançou 100 anos.
“Eu devo muita oração para ela. A minha mãe contou que quando eu nasci, essa senhora foi a primeira que me pegou no colo. Era minha babá. A minha mãe sempre falava para respeitar essa gente. Então eu fiquei tão sentido com a perda porque ela tinha 100 anos e era lúcida, sabia de tudo, não era esquecida”, lamenta Vicente.
Terra boa, pouco retorno
Recordar os velhos tempos é um dos hábitos mais frequentes dele, principalmente da época que cultivava lavouras. Reclama que agora não consegue mais lidar com plantio. Quando mais jovem, a lida na terra era parte do cotidiano, plantava feijão, milho e batata. Apesar das excelentes colheitas, diz que o esforço pouco compensava, a remuneração era muito baixa.
“Deu bem mesmo, colhemos muito, mas o que adiantou? O preço não ajudou. A terra é boa mas agora não planto mais, porque com 77 anos já não tenho mais força, sinto dor nas costas e muita canseira”, relata.
Queijo artesanal
A produção de queijo artesanal também foi uma atividade econômica importante para a família Ales. Assim como os cereais e legumes, os queijos também eram destinados para o comércio de Curitiba.
“Criamos gado, vacas leiteiras. Eu tive uma vaquinha leiteira que dava 18 litros de manhã e 20 litros à noite. Esta vaquinha ajudou nossas economias. A gente fabricava queijo e vendia para um restaurante do supermercado Kaminski, da Wanda Kaminski. Era supermercado colonial e a gente fornecia a panificação deles, o leite, com nota de saúde pública e tudo mais”, explicou Vicente.

