Por entre as massas e as maçãs
Por José Martins
Era o ano de 2002 eu trabalhava na Câmara Municipal de Pinhais e conheci a Marli.
Não fizemos amizade de início. Ela era mais recatada, eu medroso. Apenas por uma
vez conversamos junto ao Ari, seu marido, que morreria seis anos mais tarde em
uma tragédia, que marcaria a vida da Marli. Para sempre.
A vida política nos aproximou, mesmo em um compasso mais lento. Em algum
momento eu soube que ela era natural de Goioerê, mas que vivera pouco tempo lá.
E o assunto morreu. Vieram as nossas gestões na Prefeitura de Pinhais e tivemos
mais proximidade e eu fiz boas descobertas que mostram coincidências em nossas
vidas, descritas aqui como uma crônica livre, que serve apenas reverenciar esse o
vulto chamado de Marli Paulino; e também para ilustrar ilustrar o quê ela representa
em nossas vidas; para Pinhais e para o Paraná todo.
Eu nasci em 1966 e Marli em 1965. Em 1970 eu morava em um sítio na Flor do Oeste,
onde a cultura predominante era o algodão. Cresci no algodão, ora correndo das
lagartas, ora enfrentando-os, em uma ansiedade infantil, livre ao colocar as maçãs
branquinhas em um fardo amarrado na cintura quase sempre com um barbante ou
com uma imbira.
Naquela época, as crianças trabalhavam já aos 05 anos. O recorde da minha
prodigiosa colheita era 15 quilos de algodão por dia. Era uma felicidade aprender a
trabalhar na lavoura de algodão, junto a uma multidão de pessoas praticamente em
mutirão, na primeira, na segunda e muitas vezes na terceira cata.
E a Marli? Algo me diz que ela com seis ou sete anos, em algum outro sítio também
já colhia algodão para ajudar sua família. O fruto da colheita, na época, em Goioerê
conhecido como capital do algodão, era posteriormente enfardado e levado em
carroças para a algodoeira. Marli morava a trezentos metros da algodoeira que
levava o nome da cidade e essa empresa faz parte do seu passado, mora ainda hoje
na sua lembrança. Algumas vezes ela me perguntou sobre a Algodoeira do
Okamoto. A pequena Marli deve ter observado muitas vezes as carroças de quatro
cavalos carregando fardos enormes. Os japoneses de Goioerê detinham nos seus
domínios o cultivo e o processamento do algodão. Seu Vicente Okamoto era o rei do
algodão. Comprava quase toda a produção da região. Foi ele inclusive uma
personagem importante nos primeiros momentos em que Marli e sua mãe moraram
na barranca do Arroio Schimidt, que atravessa a cidade de ponta a ponta. Na
avenida Tiradentes havia uma descida enorme, e lá na última rua habitava
modestamente a família da Marli, tendo o riacho como retaguarda no fornecimento
de água, em um tempo que havia muito poço e quase nenhuma torneira. Até seis
anos, muitas vezes passei na frente da casa da Marli a caminho da cidade. A casa da
Marli estava a caminho do sítio do meu pai. Eu nunca imaginaria que nossos
caminhos se cruzariam outras vezes. Minha família migrou para Cascavel em 1971 e
retornou em 1977. Nesse ano, pude estudar a terceira e quarta série na mesma escola
em que Marli se alfabetizou, já adolescente. Eu estudei de manhã, ela estudava
provavelmente à noite. Era a Escola Maria Antonieta Scarpari. Provavelmente
passamos pelos mesmo lugares e pelas mesmas ruas. Em seguida Marli foi para Foz
do Iguaçu sem saber o que lhe esperava no futuro.
Agora, ao disponibilizar sua vida e sua história, em minúcias, ela utiliza na capa a
imagem maravilhosa da roça de algodão e se põe a frente das ruas, curiosamente,
disposta e com coragem para puxar com os dedos as maçãs, uma uma, por todo um
dia, coletando-as no fardo pesado.
Imediatamente pude entrar, através dessa imagem na história, e imaginar, em
paralelo, por alguns minutos, a minha própria história que começa numa roça de
algodão, onde aprendi o trabalho, que me acompanha até hoje.
Marli é a moça do interior que ganha o mundo e se torna admirada e amada por
milhares de pessoas. Sua história comove, emociona e seduz. Até na sua história eu
pego carona.
Livro: Das raízes do campo ao coração do Paraná. A história de Marli Paulino.
Lançamento: 15/09/2026 – Pinhais Pr.


