Quando a cidade dorme, FAS está nas ruas para ajudar pessoas sem abrigo
Em noites de baixas temperaturas, equipes da Fundação de Ação Social intensificam o trabalho para oferecer acolhimento e proteção para pessoas em situação de rua
O relógio marcava 18h15 quando o primeiro chamado da noite chegou à Central de Encaminhamento Social (CES), no Centro de Curitiba. A solicitação, encaminhada pela Central 156, indicava a presença de pessoas em situação de rua que precisavam de atendimento.
Era apenas o início de mais uma noite de trabalho para as equipes de abordagem social da Fundação de Ação Social (FAS), serviço realizado ininterruptamente durante todo o ano e intensificado sempre que há previsão de temperaturas iguais ou menores a 8°C, o que aumenta o risco de hipotermia.
Com vários cobertores colocados no banco da van, os educadores sociais Claudiane Grokoski e Marcos Hilquena dos Santos seguiram para a Praça Eufrásio Correia. No local, três homens aguardavam a chegada da equipe. Todos queriam ser acolhidos em uma das unidades mantidas pelo município para passar a noite protegidos do frio.
Mas nem todos aceitam atendimento. Debaixo de uma árvore, enrolado em um cobertor marrom e usando uma touca para enfrentar o frio, José dormia sozinho. Apesar da oferta de acolhimento, preferiu ficar na rua. “Eu não vou, porque logo vou trabalhar em um carrinho de cachorro-quente”, explicou. Diante da recusa, Claudiane entregou mais um cobertor para ajudar José a enfrentar a madrugada.
Pouco depois, às 18h37, a van deixou a praça levando os três homens para acolhimento, um deles com sinais de embriaguez. O destino era a Casa de Passagem Doutor Faivre, que funciona no Centro Intersetorial de Atenção a Pessoas em Situação de Rua (FAS SOS), no Jardim Botânico.
Uma nova chance
Mal havia concluído o primeiro atendimento, a equipe já seguiu para um novo endereço. O protocolo recebido pela Central 156 indicava duas pessoas em situação de rua na Rua Desembargador Westphalen, no Centro. “Deve ser em frente à loja de pão de queijo”, comentou Claudiane, acostumada a atender naquela região.
No local, os educadores encontraram Allisson, de 27 anos. Natural de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, ele vive há oito anos em situação de rua. “Eu vou para o acolhimento porque hoje estou sem cobertor e está muito frio. E também porque, se eu ficar na rua, vou continuar usando droga e eu não quero”, disse. Allisson contou que o amigo que o acompanhava havia saído para buscar entorpecentes pouco antes da chegada da equipe.
O chamado para atendimento foi feito pela gerente da lanchonete do pão de queijo, Dyeine dos Santos Pereira. Desde 2024, ela aciona a FAS sempre que percebe pessoas em situação de vulnerabilidade na região. “Acho melhor chamar porque assim eles não ficam passando frio e nem ficam aqui na frente do comércio”, disse.
Ela contou que antes fazia as solicitações por telefone, mas hoje prefere usar o aplicativo Curitiba 156. “É muito mais fácil. Já fiz 27 chamados pelo aplicativo”, viu ela, no telefone.
Histórias diferentes
Um novo chamado levou a Claudiane e Marcos novamente à Praça Eufrásio Correia. Lá estava Edivaldo Silva, 48 anos. Nascido em São Paulo, ele vive em Curitiba há três décadas. Carregando uma grande mochila nas costas, pediu acolhimento na Casa de Passagem Doutor Faivre. “Para mim lá é melhor porque está perto do meu trabalho”, comentou. Edivaldo trabalha na manutenção de um hotel no Centro, faz bicos como cuidador de carros e que passou a viver nas ruas após uma separação.
Na mesma praça, outros quatro homens receberam atendimento, mas preferiram permanecer na rua. Todos pediram cobertores. Um deles disse que gostaria de ir para uma unidade de acolhimento, mas desistiu por saber que precisaria guardar seus pertences no guarda-volumes, procedimento adotado em todas as unidades por questão de segurança.
Bryan, 20 anos, e Gustavo, 25, disseram que costumam dormir em um imóvel abandonado na região central, enquanto Nery, 37, explicou que cuida de carros e há um ano prefere dormir na rua.
A FAS não desiste
A rotina das equipes da FAS é marcada pela persistência. Das 18h de quinta-feira (18/6) às 6h da manhã de sexta-feira (19/6), foram realizadas 310 abordagens sociais em toda a cidade. A maior parte dos atendimentos envolveu homens (267), seguido de 42 mulheres e uma pessoa trans.
Do total, 104 pessoas aceitaram algum tipo de atendimento e 95 foram encaminhadas para unidades de acolhimento, onde encontraram alimentação, local para higiene, roupas limpas e uma cama segura para dormir. As outras pessoas receberam outros encaminhamentos. Uma retornou para a unidade de acolhimento onde já é acompanhada, duas decidiram voltar para suas famílias, três foram atendidas pelo Consultório na Rua, da Secretaria Municipal da Saúde, e outras três foram levadas para unidades de pronto atendimento.
Por outro lado, 203 pessoas recusaram acolhimento, mesmo com a previsão de frio intenso. As equipes também distribuíram 60 cobertores e oito mantas térmicas para aqueles que optaram por ficar nas ruas.
Para o presidente da FAS, Renan de Oliveira Rodrigues, a principal característica do trabalho é a persistência. “Muitas pessoas não aceitam atendimento e preferem permanecer nas ruas. Mas nossas equipes nunca desistem e sempre irão abordar essas pessoas e ofertar atendimento. Nosso objetivo é que, em algum momento, elas se vinculem aos serviços e possam decidir deixar as ruas”, explicou.
De acordo com Renan, para quem prefere permanecer nas ruas, o acompanhamento continua acontecendo, especialmente durante os períodos de baixas temperaturas e quando há questões de saúde que exigem monitoramento constante.
Durante toda a noite, 1.573 pessoas dormiram nos abrigos mantidos pelo município, sendo que a maioria já estava acolhida ou procurou o serviço por conta própria.
Como a população pode ajudar
Curitiba conta atualmente com 1.769 vagas de acolhimento distribuídas em 33 unidades próprias e parceiras. A Prefeitura pode aumentar esse número com abertura de espaços provisórios previstos no Plano Municipal de Contingência para Situações de Frio.
A participação da população é fundamental. Sempre que identificar uma pessoa em situação de rua exposta ao frio, o cidadão pode solicitar atendimento pela Central 156, por telefone, site ou aplicativo.
Com a previsão da continuidade do frio, a FAS voltará a intensificar as abordagens sociais nas noites deste sábado (20/6) e domingo (21/6).

