Rede de apoio é fundamental para que a pessoa enlutada não precise enfrentar tudo sozinha

Além do trabalho na Central de Transportes da Smati, Jocyla Mazuroski oferece acolhimento a pessoas que enfrentam perdas e defende que a presença pode ser tão importante quanto as palavras

A perda de alguém querido muda a rotina, transforma os dias e deixa perguntas que nem sempre encontram respostas. Em meio à dor, nem todo mundo sabe o que dizer ou como ajudar. Para a servidora da Prefeitura de Curitiba Jocyla Mazuroski, que trabalha na Central de Transportes da Secretaria de Administração e Tecnologia da Informação (Smati), um dos caminhos para atravessar esse momento começa com o gesto simples de estar presente.

Servidora municipal desde 2009, Jocyla construiu uma trajetória por diferentes áreas da administração pública até chegar à Smati. Nela, a servidora ajuda a garantir que veículos utilizados pelas diferentes secretarias tenham o suporte necessário para funcionar.

Foi em 2020 que começou a formação em psicanálise, concluída três anos depois, aprofundando interesses que já faziam parte de sua maneira de se relacionar com as pessoas, como a escuta e o acolhimento. Hoje, além do trabalho na Prefeitura, ela oferece atendimentos voluntários a pessoas em sofrimento emocional, especialmente aquelas que atravessam o luto.

“O que os enlutados querem é presença. Naquele momento tão intenso do luto, a pessoa não vai ouvir tudo o que você está falando. Então é muito mais importante estar com ela, dizer que você está ali. Às vezes, é um simples abraço”, explicou.

Trajetória no serviço público

Jocyla ingressou na Prefeitura de Curitiba em 2009, na área de Educação Infantil. Em 2013, passou a trabalhar na então Secretaria do Trabalho, onde atuou como supervisora e acompanhava as equipes dos postos de atendimento ao trabalhador, conhecidos como Sines.

A experiência envolvia visitas, reuniões e conversas com supervisores e atendentes. Foi nesse contato cotidiano que a servidora fortaleceu sua habilidade de ouvir e acolher as pessoas. Posteriormente, com a incorporação da área pela Fundação de Ação Social (FAS), continuou atuando nesse campo até 2020.

Em junho daquele ano, chegou à Smati, onde passou a integrar a equipe responsável pela gestão de contratos e pelos serviços de transporte da Prefeitura. Desde então, trabalha na área de abastecimento da frota municipal, ao lado de outros servidores.

“A gente cuida de tudo que é relacionado a abastecimento e condutores. Cadastro dos veículos, as tags que são coladas nos carros, englobamos todo esse processo, de todas as secretarias”, comentou.

O setor também atende motoristas que encontram problemas durante o abastecimento, acompanha questões relacionadas a cadastros e empenhos e participa do processamento das notas fiscais dos serviços. Em meio a rotina administrativa que exige organização e atenção a diferentes demandas, Jocyla encontrou na formação em psicanálise um caminho para aprofundar o interesse pelo cuidado emocional.

Acolher a dor

Concluída a formação em psicanálise, em 2023, Jocyla buscou outros cursos voltados a situações de sofrimento extremo, como luto, ideação suicida, traumas, desastres e crises emocionais. Neste ano, também concluiu uma certificação em primeiros socorros psicológicos, voltada ao atendimento inicial em situações de crise.

O luto tornou-se seu principal campo de interesse. Além dos atendimentos particulares, ela oferece apoio a servidores públicos e outras pessoas de acordo com as necessidades de cada situação, de forma voluntária ou a valor social.

Em alguns casos, o acolhimento exige ações concretas. A servidora já chegou a acompanhar uma pessoa ao cemitério durante um momento de grande sofrimento. Em outras situações, o primeiro passo é sentar, conversar e ajudar a identificar quem pode oferecer apoio nos dias seguintes.

Esse cuidado pode envolver a orientação de familiares e amigos sobre como ajudar nas tarefas cotidianas, como preparar uma refeição, cuidar dos filhos ou simplesmente fazer companhia. Para Jocyla, a rede de apoio é fundamental para que a pessoa enlutada não precise enfrentar tudo sozinha.

“Em vários casos, a pessoa está ali sozinha. O que ela precisa? Às vezes, é alguém que leve uma comida, que busque os filhos e saia com eles. A gente vai orientando essa rede de apoio”, contou.

Ela ressalta que cada experiência de luto é única e que nem toda pessoa enlutada precisa necessariamente de terapia. O acolhimento, a escuta e o apoio das pessoas próximas podem ajudar nesse processo, enquanto situações mais complexas, especialmente as que envolvem mortes violentas ou traumáticas, podem exigir acompanhamento profissional.

Também chama a atenção para a dificuldade de respeitar o tempo da dor em uma sociedade que espera respostas rápidas e a retomada imediata da rotina.

“Hoje em dia, nós vivemos em uma sociedade em que é tudo imediatismo. Você tem que engolir tudo, não pode transparecer nada. Mas o luto tem que ser vivido”, afirmou.

Cuidado aos servidores

A preocupação de Jocyla com o acolhimento não se restringe aos atendimentos individuais. Ao longo de sua trajetória, ela também passou a olhar para as necessidades emocionais de quem trabalha no serviço público, especialmente profissionais que lidam com situações difíceis ou com a perda de pessoas próximas.

Para a servidora, a volta ao trabalho depois de uma perda pode ser um momento delicado. Um gesto de solidariedade dos colegas, uma conversa ou um abraço podem ajudar a pessoa a se sentir amparada.

“Você ir lá e dar um abraço na pessoa, esse acolhimento que ela recebe, faz toda a diferença. São pequenas ações”, disse.

Jocyla também destaca a importância de olhar para os profissionais que convivem diariamente com o sofrimento alheio, como agentes da Guarda Municipal, trabalhadores do trânsito, socorristas e equipes que atuam em serviços relacionados à morte. Na avaliação dela, essas pessoas também precisam de espaços de escuta e cuidado.

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